A arte de perder, por Elizabeth Bishop


A arte de perder, de Elizabeth Bishop, toca um tema inevitável e assustador ao ser humano: a perda.

Elizabeth Bishop é uma autora americana e uma das mais renomadas poetisas do século XX.

Sobre a arte de perder…

Perder é arte porque envolve criatividade e saber colorir para poder se lidar.

O paradoxo é que a perda é o caminho para a liberdade porque a liberdade consiste na arte de fazer escolhas.

E toda escolha contém em si a perda.

Ao se escolher algo se abre mão do que não foi escolhido e isto é perda.

Ao se escolher algo se renuncia, ao mesmo tempo, algo.

Além da arte de renunciar, inúmeras vezes, é necessária a arte de resignar.

A arte de resignar consiste em aceitar que a vida é também artista e nós somos parte da sua obra.

A arte de resignar envolve não o talento de ser autor, mas sim o de ser ator e saber representar o papel que a vida delegou.

Elizabeth Bishop toca este tema com uma delicadeza rodeada de cotidiano mostrando que a perda é ingrediente diário do viver humano.

Paulo Rogério da Motta


A arte de perder, por Elizabeth Bishop

 

A arte de perder não é nenhum mistério

tantas coisas contém em si o acidente

de perdê-las, que perder não é nada sério.

Perca um pouco a cada dia. Aceite austero,

a chave perdida, a hora gasta bestamente.

A arte de perder não é nenhum mistério.

Depois perca mais rápido, com mais critério:

lugares, nomes, a escala subsequente

da viagem não feita. Nada disso é sério.

Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero

lembrar a perda de três casas excelentes.

A arte de perder não é nenhum mistério.

Perdi duas cidades lindas. Um império

que era meu, dois rios, e mais um continente.

Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.

Mesmo perder você (a voz, o ar etéreo, que eu amo)

não muda nada. Pois é evidente

que a arte de perder não chega a ser um mistério

por mais que pareça muito sério.


A arte de perder, na voz de Antônio Abujamra