A arte e a incapacidade de ser verdadeiro


Carlos Drummond de Andrade ao escrever “A incapacidade de ser verdadeiro” nos possibilita refletir sobre o quanto a imaginação pode colorir a nossa vida e fazer de nós adoráveis mentirosos!

Há pessoas que transformam o mundo em uma paisagem em preto e branco e tudo o que nela existe é feito de retas e seus movimentos são mecânicos. São as pessoas sem imaginação!

São os seres da rígida racionalidade e que miseravelmente nasceram desprovidos da vontade de sonhar!

São os seres que não nasceram com a disposição de viver a vida como “Arte”!

Trouxe duas obras primas para compartilhar com você: uma de Drummond e a outra de Toquinho.

Escolhi estas duas obras para mostrar que a arte e a sua incapacidade de ser verdadeira é uma dádiva que torna a vida uma jornada com muitos encantos.

Primeiro vamos ler e assistir Drummond em “A incapacidade de ser verdadeiro”:

 


Paulo tinha fama de mentiroso.

Um dia chegou em casa dizendo que vira no campo dois dragões da independência cuspindo fogo e lendo fotonovelas.

A mãe botou-o de castigo, mas na semana seguinte ele veio contando que caíra no pátio da escola um pedaço de lua, todo cheio de buraquinhos, feito queijo, e ele provou e tinha gosto de queijo.

Desta vez Paulo não só ficou sem sobremesa como foi proibido de jogar futebol durante quinze dias.

Quando o menino voltou falando que todas as borboletas da Terra passaram pela chácara de Siá Elpídia e queriam formar um tapete voador para transportá-lo ao sétimo céu, a mãe decidiu levá-lo ao médico.

Após o exame, o Dr. Epaminondas abanou a cabeça:

– Não há nada a fazer, Dona Coló. Este menino é mesmo um caso de poesia.

 

 

O vídeo é do programa “Provocações” e a poesia “A incapacidade de ser verdadeiro” de Carlos Drummond de Andrade foi apresentada por Antônio Abujamra.

Paulo é alguém com a incapacidade de ser verdadeiro e que faz isso porque vive a vida como arte.

A arte é imitação!

A arte imita o amor descrevendo-o em poesias.

A arte imita a vida em filmes e romances.

A arte imita o ser humano em esculturas.

A arte imita e o que é imitado não é o verdadeiro.

Esta constatação poderia ser dolorosa ao artista e prazerosa ao racionalista ortodoxo, mas… Não é!

O artista chama a sua mentira de inspiração, criatividade e símbolo.

O racionalista não consegue com seu racionalismo criar equações que digam cientificamente o que é amor, vida e ser humano.

O artista vive coloridamente suas mentiras artísticas.

O racionalista fanático vive tudo no acinzentado tom (e nem são cinquenta tons!) da existência de tudo pela lógica.

Enfim, o artista e a sua incapacidade de ser verdadeiro vive as mais profundas e simbólicas verdades ditas em forma de mentiras criativas.

O racionalista sem noção da preciosidade de sonhar faz contas sem perceber que tudo aquilo que cabe em uma quantidade é limitado.

Quem tem a incapacidade de ser verdadeiro em nome da arte possui a escolha de ser verdadeiro na vida, pois a natureza humana é dotada do tesouro da “imaginação” e só aquele que atende à sua natureza pode ser autêntico.

Já quem não tem essa incapacidade de ser verdadeiro em nome da arte somente tem a possibilidade de “se achar” verdadeiro sem ser autentico e, por não atender a sua própria natureza que o fez um ser com imaginação e, assim um artista da vida, resta apenas a alternativa de ser uma mentira de si mesmo.


Vamos assistir e ouvir Toquinho e a sua prova inquestionável de sua incapacidade de ser verdadeiro em nome da arte!

 

Paulo Rogério da Motta 


Aprecie também uma poesia sobre os diversos “eus” que existem em cada um

Euniverso – Vídeo Poesia