A poesia mística de Rumi

Aprecie a poesia mística de Rumi na voz de Letícia Sabatella.

Versos para a alma.

O destino do coração

Os olhos foram feitos para ver coisas insólitas,

fez-se a alma para gozar da alegria e do prazer.

O coração foi destinado a embriagar-se

na beleza do amigo ou na aflição da ausência.

A meta do amor é voar até o firmamento,

a do intelecto, desvendar as leis e o mundo.

Para além das causas estão os mistérios, as maravilhas.

Os olhos ficarão cegos

quando virem que todas as coisas

são apenas meios para o saber.

O amante, difamado neste mundo

por uma centena de acusações,

receberá, no momento da união,

cem títulos e nomes.

Peregrinar nas areias do deserto

nos exige suportar

beber leite de camelo,

ser pilhados por beduínos.

Apaixonado, o peregrino beija a Pedra Negra

ansioso por sentir mais uma vez

o toque dos lábios do amigo

e degustar como antes o seu beijo.

Ó alma, não cunhes moedas com o ouro das palavras:

o buscador é aquele que vai

à própria mina de ouro.


Sama

Viemos girando do nada, espalhando estrelas como pó.

As estrelas puseram-se em círculo e nós ao centro dançamos com elas.

Como a pedra do moinho, em torno de Deus gira a roda do céu.

Segura um raio dessa roda e terás a mão decepada.

Girando e girando essa roda dissolve todo e qualquer apego.

Não estivesse apaixonada, ela mesma gritaria – basta!

Até quando há de seguir esse giro?

Cada átomo gira desnorteado, mendigos circulam entre as mesas, cães rondam um pedaço de carne, o amante gira em torno do seu próprio coração.

Envergonhado ante tanta beleza giro ao redor da minha vergonha.

Vem Ouve a música do sama.

Vem unir-te ao som dos tambores!

Aqui celebramos:

Somos todos a verdade.

Em êxtase estamos.

Embriagados sim, mas de um vinho que não se colhe na videira;

O que quer que pensem de nós em nada parecerá com o que somos.

Giramos e giramos em êxtase.

Esta é a noite do sama

Há luz agora.

– Luz ! Luz!

Eis o amor verdadeiro que diz a mente: adeus.

Este é o dia do adeus.

– Adeus ! Adeus !

Todo coração que arde nesta noite é amigo da música.

Ardendo por teus lábios, meu coração transborda de minha boca.

Silêncio!

És feito de pensamento, afeto e paixão.

O que resta é nada além de carne e ossos.

Por que nos falam de templos de oração, de atos piedosos?

Somos o caçador e a caça, outono e primavera, noite e dia, o visível e o invisível.

Somos o tesouro do espírito.

Somos a alma do mundo, livres do peso que vergasta o corpo.

Prisioneiros não somos do tempo nem do espaço, nem mesmo da terra que pisamos.

No amor fomos gerados.

No amor nascemos.