Filme e cultura

Qual a relação entre filme e cultura?

O filme é um artefato cultural.

Essa simples afirmação já traz em si um papel atuante do filme em nossa sociedade, pois na medida em que é um artefato é algo criado por alguém e destinado a um fim (outro alguém) e esta interação e inter-relação é o modus operandi da cultura.

O filme é cultura porque o filme é um meio da arte imitar a vida e mesmo não sendo o espelho fiel desta em razão de sua apresentação ser fragmentada e a vida ser contínua e também pelo fato de ser a idealização propositada pelos seus criadores.

Ainda assim neste artefato cultural podemos ver que na projeção da tela acontece também a projeção de conceitos, expectativas, julgamentos e tantos outros mais componentes do ser que é o espectador.

Tornando a explanação mais abrangente é possível ver que um filme pela sua magnitude é um componente cultural a partir de sua idealização.

Para elucidação segue um exemplo sem a pretensão de ser um esquema definitivo ou completo de um filme:

  • Para que haja um filme é preciso preexistir uma história e uma citação de Joseph Conrad é bastante oportuna para ilustrar a concepção do papel da estória em um filme:

O objetivo que tento atingir, pelo poder da palavra escrita, é fazer você escutar, fazer você sentir e acima de tudo, fazer você ver. Isto, e nada mais, é tudo”.

  • Neste papel de escrever a história surge o escritor (romancista, roteirista, etc.) que colocam como ofício serem fazedores de cultura;
  • Para a realização do filme é preciso que existam os recursos e aqui surgem os produtores inserindo a economia como um dos passos da elaboração do artefato cultural: filme;
  • Havendo os recursos há a formação do elenco e staff e aqui o fenômeno das relações sociais se faz presente;
  • Na construção do filme há que se buscar antropologicamente o contexto do filme através de costumes, época, vestuário, meio, etc.
  • Ainda na construção do filme a visão, ideias e conceitos de seus criadores (o diretor em relação à história e os atores em relação às personagens) são agregados à história e estes exercem assim também o papel de fazedores de cultura;
  • Após o filme concluído a exibição deste o transforma em artefato cultural para todo aquele que tiver contato com ele.

Por tudo isso e por mais é que o filme é um componente cultural e de grande dimensão em nossa sociedade atual pela abrangência que consegue ter e pelos valores econômicos que estão envolvidos.

O filme é cultura pela difusão de modelos e conceitos que é própria da sua existência (personagens exercem o papel de agentes de motivação, julgamento, etc.; atores viram modelos de conduta e referência; ideologias são apresentadas e são condenadas ou admiradas, são alguns dos exemplos), por ser um meio de interação social, etc.

Além de todas as características de relação do homem com o seu meio, o filme também é uma ferramenta de interação do homem consigo mesmo, pois na medida em que o homem questiona, ele exerce a filosofia, na medida em que se emociona ou altera seu comportamento, ele passa a ser figura da psicologia, na medida em que movimenta recursos ele é um agente econômico, na  medida em que julga coloca em foco a ética, a liberdade, a religiosidade, etc.

Enfim, a relação entre filme e cultura se dá pelo fato do filme ser um componente cultural com inúmeros recursos e possibilidades e uma frase de Charles Chaplin serve muito bem como retrato de que o filme e cultura estão entrelaçados, mesmo sendo o filme um entretenimento, mas como uma “brincadeira muito séria”:

Se você tivesse acreditado na minha brincadeira de dizer verdades, teria ouvido verdades que teimo em dizer brincando, falei muitas vezes como o palhaço, mas nunca desacreditei da seriedade da plateia que sorria.

Paulo Rogério da Motta