Lya Luft procurando o tom


Lya Luft diz que o autor procura o tom para escrever assim como faz o músico.

Lya Luft amplia a sua ideia e diz que também procuramos o tom para viver.

Este é um trecho de sua obra: “Perdas e ganhos” em que a autora mostra toda a delicadeza e profundidade de sua escrita.

Vamos ao nosso momento com Lya Luft!

Lya Luft procurando o tom

 Lya Luft procurando o tom


 

Encontro um amigo, um pianista consagrado, e conto que estou começando um livro, mas como sempre no início de um novo trabalho ainda estou buscando “o tom” certo.

Ele acha graça, então escritor procura o tom?

Rimos, porque acabamos descobrindo que os dois buscamos a mesma coisa: encontrar o nosso tom.

O da nossa linguagem, da nossa arte, e – isso vale para qualquer pessoa – o tom da nossa vida.

Em que tom queremos viver? (Não perguntei como somos condenados a viver).

Em meios-tons melancólicos, em tons mais claros, com pressa e superficialidade ou alternando alegria e prazer com momentos profundos e reflexivos.

Apenas correndo pela superfície ou de vem em quando mergulhando em águas profundas.

Distraídos pelo barulho em torno ou escutando as vozes nas pausas e nos silêncios – a nossa voz, a voz do outro.

Nosso tom será o de suspeita e desconfiança ou serão varandas abrindo para a paisagem além de qualquer limite?

Parte disso depende de nós.

No instrumento de nossa orquestração somos – junto com fatalidades, genética e acaso – os afinadores e os artistas.

Somos, antes disso, construtores de nossos instrumentos. O que torna a lida mais difícil, porém muito mais instigante.

Na arte como nas relações humanas, que incluem os diversos laços amorosos, nadamos contra a correnteza.

Tentamos o impossível: a fusão total não existe, o partilhamento completo é inexequível.

O essencial nem pode ser compartilhado: é descoberta e susto, glória ou danação de cada um – solitariamente.

Porém numa conversa ou num silêncio, num olhar, num gesto de amor como numa obra de arte, pode-se abrir uma fresta.

Espiarão juntos, artista e seu espectador ou seu leitor – como dois amantes.

E assim, rasgando joelhos e mãos, a gente afinal vai.

Pois viver deveria ser – até o último pensamento e o derradeiro olhar – transformar-se.

Lya Luft


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