O que é matrística?

Saber o que é matrística é adquirir um conhecimento realmente importante, ainda mais no tempo que vivemos em que a preocupação de informar é conseguir cliques e não transmitir algo que seja útil e verdadeiro a quem lê.

Digo que saber o que é matrística é algo importante na atualidade porque vivemos dentro de uma cultura patriarcal que vem destruindo a sociedade e configurando seres humanos superficiais.

Antes de responder a pergunta o que é matrística vamos inicialmente dizer o que não é matrística.

Matrística não é matriarcado

Matriarcado e PatriarcadoVamos falar das expressões: matriarcado e patriarcado.

Estas duas expressões tem em comum a sua origem grega e a derivação de “archein” que significa reinar ou governar.

Já a palavra patriarcado deriva do grego “pater” que significa pai e a palavra matriarcado de “mater” que significa mãe.

Sendo assim, etimologicamente podemos entender o patriarcado como algo que determina a dominância do pai ou do masculino e o matriarcado como a dominância da mãe ou do feminino.

Patriarcado e matriarcado constituem, então, dois modos diferentes de se viver as relações humanas. No patriarcado reina o masculino e no matriarcado impera o feminino.

Matrística também tem origem em “mater” e, ampliando as suas possibilidades de significados, temos as palavras: materno e matriz.

Matriz! Lembra do filme Matrix? Matrix era a matriz geradora, a maternidade… Não escolheram à toa o nome do filme!

Mas voltemos ao nosso tema!

Primeira coisa: matrística não é matriarcado.

Mas, então, o que é matrística?

Vimos que patriarcado e matriarcado indicam a dominância do masculino ou do feminino.

Matriarcado não é sinônimo de matrística porque a ideia fundamental da matrística é a de que homem e mulher podem viver um modo de vida que não se baseia em hierarquia, ou seja, não há que se ter dominância de um lado ou de outro.

A matrística não é centralizada em masculino e feminino e na ideia de antagonismo entre um e outro. Não é Clube do Bolinha nem Clube da Luluzinha!

A matrística se baseia na cooperação entre feminino e masculino e não há controle de autoridade.

O resgate do sagrado feminino

Hoje ao se falar de matrística é preciso se falar de Humberto R. Maturana, um biólogo chileno que fundou o Instituto de Formação Matríztica e é o autor do livro “Amar e brincar: Fundamentos esquecidos do humano do patriarcado à democracia”. Esta obra é referência para o estudo da matrística.

Vou colocar um trecho desta obra aqui em que Maturana explica a matrística:

“O termo “matrístico” é usado […] com o propósito de conotar uma situação cultural na qual a mulher tem uma presença mística, que implica a coerência sistêmica acolhedora e liberadora do maternal fora do autoritário e do hierárquico.”.

Veja que interessante ao se colocar a mulher como tendo uma presença mística!

Hoje, felizmente, estamos num momento em que muitas pessoas buscam o resgate do sagrado feminino e isto é vital, pois, em minha opinião, é o único caminho para a transformação necessária e urgente da nossa sociedade atual.

Reservarei a última parte deste artigo para falar da cultura patriarcal dominante atualmente.

Resgatar o sagrado do papel feminino é resgatar a importância de características femininas como o acolhimento, sensibilidade, conciliação e tantas outras características que estão anestesiadas nos dias de hoje.

Cultura ecológica

Além do fundamental resgate do sagrado feminino, outro benefício da cultura matrística é a instauração de uma cultura ecológica.

Mais um pouco de Maturana:

“Tal ocorre precisamente porque a figura feminina representa a consciência não-hierárquica do mundo natural a que nós, seres humanos, pertencemos, numa relação de participação e confiança, e não de controle e autoridade, e na qual a vida cotidiana é vivida numa coerência não-hierárquica com todos os seres vivos […].”.

Conviver de forma não hierárquica com todos os seres vivos!

Isto seria um “admirável mundo novo”! Hoje o ser humano com sua cultura patriarcal se acha dono do mundo e perdeu a verdade essencial de que ele “participa” do mundo e assumiu a atitude prepotente de achar que a natureza lhe pertence.

O ser humano não é dono da natureza. O ser humano é parte da natureza.

Aqui temos um bom gancho para falarmos da cultura patriarcal.

O necessário fim da cultura patriarcal

Vejamos o que Maturana fala da cultura patriarcal:

“[…] Esta se caracteriza pelas coordenações de ações e emoções que fazem de nossa vida cotidiana um modo de coexistência que valoriza a guerra, a competição, a luta, as hierarquias, a autoridade, o poder, a procriação, o crescimento, a apropriação de recursos e a justificação racional do controle e da dominação dos outros por meio da apropriação da verdade.”.

Autoridade, poder, dominação, competição… Estas palavras retratam a cultura atual que é a cultura patriarcal com suas características masculinas.

Hoje a nossa cultura é baseada em chavões que utilizam palavras como: conquistar, lutar, combater, vencer, derrotar. Ou seja, até para se alcançar algo bom utilizamos expressões de guerra!

A cultura patriarcal faz a figura masculina ser aquela que reina e fica no topo da hierarquia social, por isso, homens ganham mais do que mulheres exercendo a mesma função, existem culturas de total submissão da mulher e tanta coisa mais.

A cultura patriarcal reinante atualmente faz com que “homens machões” vivam baseados em expressões como:

  • Homem não chora
  • Homem não pode usar cor de rosa (essa começa já quando o menino nasce)
  • Atividade doméstica é para mulher
  • Sou heterossexual e mulherengo (quem diz isso deveria ler Jung e saber o que é “anima”)
  • Homem é forte e mulher é fraca (talvez se fossem os homens que parissem a humanidade já teria acabado)
  • Homem é superior à mulher (esta é a expressão máxima do patriarcado)

E a cultura patriarcal está tão enraizada em cada um de nós que até mesmo muitas mulheres assumem um modelo masculino de vida e muitas estão resignadamente moldadas e se sentem elogiadas quando ouvem frases como:

“Atrás de um grande homem existe sempre uma grande mulher”.

Ops! “Atrás” do “grande” homem?!

Na matrística homem e mulher andam lado a lado!

Enfim, agora, mais do que saber o que é matrística, é preciso que nós reconfiguremos nossa cultura para ela ser matrística.

Os machista e machões de plantão, por certo, não gostaram desta ideia!

Paulo Rogério da Motta