Psicodrama: teoria, terapia e o psicoterapeuta

O Psicodrama de Moreno se baseia na espontaneidade e na criatividade.

A terapia é um espaço em que acontece o jogo de papeis e o que legitima o psicoterapeuta é ele ser e estar no mundo.

Psicodrama - Teoria, terapia e psicoterapeuta

A teoria do Psicodrama

O Psicodrama de Moreno se fundamenta nas categorias espontaneidade-criatividade.

Sobre Moreno há um artigo aqui no Euniverso: Jacob Levy Moreno e o Psicodrama.

Moreno direcionava a sua teoria para o desenvolvimento pessoal e social do indivíduo e acreditava que a transformação do ser humano pode acontecer através da ação, da experimentação e de vivências que motivem a sua reflexão e consequentes mudanças de conduta na vida.

Os papéis que o ser humano desempenha em sua vida são dimensões de sua existência.

Segundo Moreno, em sua obra: O Psicodrama:

“[…] o papel é um forma de funcionamento que o indivíduo assume no momento específico em que reage a uma situação específica. […] Não são os papeis que emergem do eu, mas, ao contrário, o eu é quem surge dos papéis. O papel é a unidade da cultura; ego e papel estão em contínua interação”.

Assim se conclui que os papéis são fenômenos observáveis, que representam aspectos tangíveis, que aparecem nas ações e pode-se dizer que “são atuados”.

A teoria no Psicodrama dos papéis indica o conceito de papel a todas as dimensões da existência humana e é um conceito central que precisa ser compreendido para que se entenda tanto a teoria quanto a prática do Psicodrama.

A teoria dos papeis faz parte do conjunto da teoria de Moreno que sempre se refere ao homem em situação, imerso no social e buscando transformá-lo através da ação.

Assim o encontro entre as pessoas com as suas falas e gestos são a face externa da personalidade, sendo então tudo o que é feito e que pode ser visto e que se relaciona com alguma coisa fora da pessoa um papel.

Os indivíduos têm participação na realidade social através dos papéis sociopsicodramáticos que, por sua vez, são determinados por fatores genéticos e ambientais.

A teoria de Moreno concebe que viver os papéis no cotidiano não é viver um faz-de-conta, e sim a expressão de espontaneidade e criatividade do ser humano, e há que se ter o cuidado para não se cair na rigidez, que Moreno chama de “conserva cultural”, que fará do homem um ser impessoal.

Os fatores espontaneidade e criatividade, somando-se também a sensibilidade podem vir a ser perturbados por sistemas sociais constrangedores, por isso a proposta fundamental dos psicoterapeutas psicodramatistas é a de trabalhar no sentido de favorecer a recuperação desses fatores, que são recursos vitais, através de relações afetivas transformadoras.

Assim: espontaneidade, criatividade e sensibilidade não podem, de forma alguma, ficarem dissociadas do comportamento humano.

Na teoria de Moreno a sensibilidade afetivo-emocional que permeia as relações humanas é chamada de “fator Tele” e este fator se faz presente quando há o encontro de duas ou mais pessoas e aí é que se dá o momento transformador.

Quando a pessoa se encontra em ambiente adverso, os elementos saudáveis espontaneidade-criatividade vão sendo prejudicados e o indivíduo passa então a ter comportamento escravo da rotina e não consegue mais dar respostas adequadas às situações novas, instaurando-se a rigidez.

Psicodrama - Teoria, terapia e psicoterapeuta

A terapia no Psicodrama

Na prática o psicodrama se propõe a procurar resgatar e recuperar o homem psicodramático que existe em cada um, permitindo a cada um viver com espontaneidade, criatividade e sensibilidade.

Desta forma, cabe ao psicoterapeuta favorecer e incrementar relações verdadeiras e objetivas, entre as pessoas.

Na teoria de Moreno uma constante é a preocupação com a interação, com o compartilhar, com o estar junto para crescer, e a prática da psicoterapia tem início com um pedido de ajuda de alguém que está em conflito, ou seja, com sua espontaneidade comprometida, com relacionamentos pouco télicos e assim exercendo papéis pobres e cristalizados em sua vida.

Cabe ao psicoterapeuta, antes de mais nada, ter e viver uma postura ideológica e filosófica, sendo tal postura essencial para uma boa terapia.

O cenário da terapia será o imprevisível, pois a espontaneidade e a criatividade serão fatores presentes em todo transcurso do processo de psicoterapia, portanto quanto mais original, criativo e espontâneo for o psicoterapeuta, melhor será a psicoterapia.

A psicoterapia se dará de forma dinâmica sendo o processo terapêutico um jogo de papéis espelhando como a pessoa vem desempenhando seus papéis na sua vida dando ao psicoterapeuta a condição de perceber a situação que se encontra o paciente.

Moreno postulava que o “eu” pode ser revelado quando o indivíduo desempenha um papel e para obter isso ele utilizava a técnica do role-playing.

 O role-playing é um jogo psicodramático de papéis em que é proporcionado ao ator uma visão do ponto de vista de outras pessoas numa correlação dos papeis em cena com os papeis na vida real.

O desenvolvimento de um novo papel passa por três fases:


Role-taking

Tomada ou adoção do papel, sendo que este papel é antecipadamente estabelecido e o indivíduo pode apenas imitar dentro dos modelos oferecidos.

Nesta fase não há liberdade e cabe ao indivíduo a aceitação do estabelecido, ou seja, o papel designado precisa ser conservado


Role-playing

Jogo de papéis de representação ou desempenho em que se explora simbolicamente as possibilidades de representação com certa liberdade.

Para Moreno, o jogo de papéis é um ato ou brincadeira espontânea.


Role creating

Criação de papéis que motiva a iniciativa, a criatividade e a espontaneidade com plena liberdade.


Em cada fase do jogo os atores desempenham os papeis de:

  • Receptor
  • Intérprete
  • Criador de papéis

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Psicodrama e o psicoterapeuta

Na teoria de Moreno, o psicoterapeuta é um modo de ser e de estar na vida, portanto, ser psicoterapeuta não é apenas exercer um papel no momento da sua atividade profissional, mas também em todos os momentos.

Sendo assim, o que legitima o psicoterapeuta é o “ser e estar no mundo do psicoterapeuta”.

 Enfim, a teoria de Moreno baseia-se na criatividade e na espontaneidade e sua teoria humaniza o papel e a função do psicoterapeuta, e segundo o próprio Moreno: “o terapeuta não é um mágico, um curador divino, mas sim um homem”.

Moreno, assim, estabelece um papel de auxiliador ao terapeuta.

Neste ponto podemos entender que a humildade é fator essencial no exercício de um psicoterapeuta.